
Oriente Extremo – O Cinema Transgressor Japonês
Oriente Extremo: a primeira mostra a gente nunca esquece…
“É justo afirmar que nós, ocidentais, sempre nos deixamos fascinar pelos aspectos únicos da cultura japonesa. E não sem motivo. A cultura nipônica sempre se destacou aos nossos olhos por seu caráter tradicional e único, mas também como representante do novo e do ousado.
Não foi diferente em relação ao cinema. O cinema nipônico tem uma história singular. Depois do fim da 2ª Guerra Mundial, a partir da década de 50, estabeleceram-se os grandes estúdios, com esquemas semelhantes a linhas de produção para a realização dos seus filmes. Os diretores eram contratados como funcionários e deviam entregar um filme por mês aos estúdios – em alguns deles, a média era de 20 filmes por mês. O Japão tinha um enorme mercado consumidor interno.
Ainda que o Ocidente só conhecesse nomes como Kurosawa, Ozu e Mizoguchi, existiam outros diretores e atores conhecidos do largo público no Japão dos anos 60. Eram frutos de filmes voltados exclusivamente para o mercado interno, para rápido consumo das massas nos cinemas. Em muitos casos eram filmes de baixo orçamento, mas todos com apelo suficiente para atrair o maior número de espectadores aos cinemas. Nomes como Tetsuya Watari, Jo Shishido e Akira Kobayashi eram tão famosos no Japão quanto Marlon Brando ou Marilyn Monroe. De maneira muito diferente do cinema de Kurosawa – considerado muito “ocidental” – esses filmes apresentavam outra estética visual e sonora, completamente diferente daquilo que Hollywood estava acostumada a produzir. E, mesmo sendo diferentes, os japoneses conseguiam se superar. Alguns diretores iam além do status quo do cinema e transgrediam a maneira de se escrever um roteiro, iluminar, montar ou dirigir um filme. Daí, temos cineastas como Ishiro Honda, o “pai” do Godzilla original, atingindo o ponto mais ultrajante de sua carreira com Matango – o ataque do Povo Cogumelo, tido como o primeiro filme lisérgico japonês (se é que algum dia houve outro). Ou Seijun Suzuki, que transformava roteiros policiais escritos a toque de caixa em obras primas pop. Sem nos esquecermos do movimento da Nouvelle Vague japonesa.
Os anos 60 plantaram o embrião da transgressão na indústria cinematográfica. Não era preciso seguir as regras, mas sim ultrapassá-las, superar expectativas. Os cineastas que surgiram daí, e seus filmes, tornaram-se referência para as gerações futuras. Porém, a década de 70 não foi tão generosa para as artes cinematográficas. O mercado interno havia perdido espaço para o cinema estrangeiro e, apesar de boas produções terem sido realizadas nesse período, os sinais de decadência eram evidentes. Tudo culminou num estado de total apatia nos anos 80, período em que não há praticamente nenhuma produção notável.
Depois de tanto tempo sem nenhuma novidade, surge uma nova geração de cineastas disposta a ressuscitar o verdadeiro cinema japonês – não aquele para exportação. Como já não havia mais cinema, tampouco haviam regras, transgredir era a palavra de ordem. Um jovem diretor de teatro experimental resolve transpor a sua trupe para a tela grande e realiza um modesto filme chamado Tetsuo – o homem de ferro. Essa pequena fábula, sobre um homem que tem seu corpo transformado em metal, tornou-se um marco ao iniciar uma nova era para o cinema, e inspirando muitos outros cineastas a seguirem o caminho da inovação e da experimentação. Daí pra frente, o caráter transgressor do cinema nipônico tornou-se quase um estilo, uma maneira de se conceber filmes. Não há mais limites, e o termo “normal” ganhou um significado completamente novo com esses cineastas contemporâneos.
A mostra Oriente Extremo – O Cinema Transgressor Japonês baseia-se nesse histórico da cultura cinematográfica no japão. Dividida em duas partes, apresenta alguns clássicos “transgressores” dos anos 60, na primeira parte, e obras contemporâneas na segunda. São filmes que se destacam pelo seu caráter incomum e pelas inovações que apresentam, seja no roteiro, direção ou estética; a grande maioria rara e jamais exibida comercialmente no Brasil – alguns apresentados pela primeira vez com legendas em português. Embora todos os títulos sejam famosos e velhos conhecidos dos japoneses, para os brasileiros será uma chance de descobrir filmes que realmente fizeram as cabeças do outro lado do globo, no extremo oriente do planeta.”
– Leopoldo Tauffenbach, curador da mostra
Serviço:
Quando: 01/06/2006 à 18/06/2006
Onde: Cine Olido / São Paulo – SP
Programa:
Parte 1 – Os precursores
dia 1º – quinta 17h: Tóquio violenta 19h30: Jigoku
dia 2 – sexta 17h: A marca do assassino 19h30: Onibaba
dia 3 – sábado 17h: Cega Obsessão 19h30: Jigoku
dia 4 – domingo 17h30: Onibaba
dia 6 – terça 17h: Matango
dia 7 – quarta 17h: A marca do assassino 19h30: Onibaba
dia 8 – quinta 17h: Cega Obsessão 19h30: Matango
Parte 2 – Os contemporâneos
dia 9 – sexta 17h: Tetsuo – O homem de ferro 19h30: Batalha Real
dia 10 – sábado 17h: Rubber’s lover 19h30: Ichi, o assassino
dia 11 – domingo 17h30: Gozu
dia 13 – terça 17h: Uzumaki 19h30: Tetsuo – O homem de ferro
dia 14 – quarta 17h: Rubber’s lover 19h30 Gozu
dia 15 – quinta 17h: Tetsuo – O homem de ferro 19h30: Ichi, o assassino
dia 16 – sexta 17h: Dragão elétrico 80000V
dia 17 – sábado 17h: Uzumaki 19h30: Batalha Real
dia 18 – domingo 17h30: Dragão Elétrico 80000V